A cúpula do G20 concluída ontem em Seul não afastou de maneira definitiva a ameaça de uma guerra cambial e adiou para o fim do próximo ano a conclusão de uma análise sobre os grandes desequilíbrios da economia global, que pode levar de maneira indireta à correção no valor de determinadas moedas, em especial o yuan chinês.
“A guerra cambial não acabou, mas passou a ser discutida”, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, depois do encerramento da cúpula.
Os negociadores do G20 se debateram durante quatro dias para reduzir suas diferenças e alcançar um consenso mínimo a ser anunciado pelos líderes hoje. “O acordo de Seul é melhor do que desacordo”, indicou o presidente da França, Nicholas Sarkozy. O francês, a partir do próximo ano, passa a presidir a cúpula do G20.
O Brasil, por sua vez, conseguiu uma vitória no G20. O comunicado assinado ontem pelos líderes do G20 admite o uso de controle de capitais por países emergentes que enfrentem a valorização indesejada de suas moedas em razão do aumento do fluxo de recursos externos, exatamente o caso do Brasil.
O texto diz que economias emergentes com reservas adequadas e taxas de câmbio sobrevalorizadas poderão adotar “medidas macroprudenciais cuidadosas”, diz o comunicado, mas sem usar a expressão “controle de capitais”.
“Isso é absolutamente inédito”, Guido Mantega, em entrevista concedida.
O dispositivo foi incluído por pressão da delegação brasileira, com a intenção de legitimar medidas defensivas que começaram a ser adotadas pelo governo no mês passado e que podem ser ampliadas, caso a pressão pela alta do real continue.
Na prática o efeito das “medidas macroprudenciais cuidadosas” é o mesmo de controle de capitais: permitir que países levantem “barreiras” contra a entrada indesejada de capital externo, especialmente o de caráter especulativo. O controle de capitais é um dos mecanismos de defesa para evitar a apreciação excessiva do real, que reduz a competitividade das exportações brasileiras, especialmente em um cenário de “guerra cambial”, na qual outros países depreciam suas moedas na tentativa de aumentar suas vendas externas.
A proposta teve resistência, mas acabou sendo aprovada ao lado de outro parágrafo no qual os países se comprometem a evitar o “protecionismo financeiro” e dizem reconhecer o risco de “proliferação” de medidas que possam afetar os investimentos e comprometer a perspectiva de recuperação global. (das agências)
Até pouco tempo o uso de controle de capitais era algo estigmatizado pelo pensamento econômico dominante internacionalmente, que defendia o fim das barreiras para o fluxo de recursos. A situação começou a mudar gradativamente depois da crise asiática de 1997, mas a desconfiança em relação aos controles permaneceu. O que alterou de fato a percepção foi o recente aumento no volume de recursos que entram nos mercados emergentes em busca de aretornos elevados para investimentos de curto prazo, atraídos pelas altas taxas de juros.
FONTE:O POVO ON LINE
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